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Botar a bola no chão e virar o jogo para o Brasil em 2022

  • Foto do escritor: Léo  Puglia
    Léo Puglia
  • 2 de fev. de 2023
  • 3 min de leitura

Texto publicado em 4 de fevereiro de 2021

Quando Liedholm fez 1 a 0 para a Suécia logo aos 4 minutos, o fantasma da derrota de 1950 no Maracanã voltou a assombrar os milhões de brasileiros que acompanhavam a final da Copa de 1958 pelo rádio. Em meio aos gritos da torcida em Estocolmo, um atordoado capitão brasileiro buscou, apressadamente, a bola no fundo da rede, mas foi surpreendido por um companheiro de equipe. Didi pediu a bola a Bellini e foi caminhando devagar em direção ao meio de campo. Quando Zagallo se aproximou, foi tranquilizado com um gesto de braço. A derrota para a Hungria 4 anos antes havia ensinado ao craque campista que não adiantaria perder a calma naquele momento. Faltavam 86 minutos e ao Brasil restava jogar futebol.

De camisa azul, a seleção venceu por 5 a 2, conquistou outros 4 títulos mundiais, mas a imagem de Didi caminhando calmamente entre companheiros aflitos continua tendo muito a ensinar 63 anos depois. Assolado pelo desemprego, devastado pela gestão criminosa da pandemia, o país parece derrotado diante da resistência no poder do pior presidente da história. Só que de nada adianta se desesperar, nem sucumbir ao pessimismo: assim como em 1958, o que nos resta é colocar a bola no chão e virar a partida.


Ainda que os absurdos diários continuem a nos abalar, é o momento de superar o choque de ver uma figura tão abjeta ascender ao comando da República. Também é a hora de deixar o complexo de vira-lata de lado e fazer o que tem que ser feito para restaurar a dignidade e a normalidade do país. Afinal, o todo poderoso Estados Unidos também foi achincalhado por um presidente vil e, por mais que a eleição de Bolsonaro tenha revelado ao mundo uma face vergonhosa do Brasil, os motivos de orgulho continuam no mesmo lugar. Não foram mandados pra Cuba. Continuamos sendo o país do Carnaval, do samba, do frevo, de Machado de Assis, do maracatu, da capoeira, de Niemeyer, do Cinema Novo, do candomblé, de Santos Dumont, do SUS, do funk... do futebol de Didi.


Mesmo com os crimes da Lava Jato, a manipulação da mídia, a canalhice predatória das elites e o terror das milícias, 47 milhões de brasileiros disseram não à boçalidade assassina no segundo turno de 2018, e outras dezenas de milhões que não votaram, anularam ou foram enganadas por Bolsonaro, sentem-se ainda mais indignadas com a destruição do país. Estamos todos no mesmo time. O que falta é colocar a bola no chão e suar a camisa. Não para convencer de que estamos na merda – todo mundo sabe –, mas para apresentar alternativas.


Não basta denunciar os crimes de Bolsonaro, é preciso divulgar os candidatos e as propostas da oposição. Por mais que uma parcela da população esteja completamente cega, esse grupo é menor do que você imagina, e, de qualquer forma, não adianta a ruptura total. Salvo algumas exceções. É certo que muitas pessoas nos decepcionaram de maneira irreversível, e os afetos nunca serão os mesmos, mas isso não significa que devemos abandonar os espaços sociais. Pelo contrário.

Ainda que nada seja capaz de tirar aquela sua tia, aquele seu primo, colega de trabalho ou vizinho do mundo da fantasia bolsonarista, também há pessoas normais no grupo do WhatsApp da família, na sua pelada de domingo, na sua igreja, no bar, no salão de beleza, no seu trabalho. Elas podem se sentir acuadas e cansadas de toda essa polarização, mas são elas que vão decidir nosso futuro em 2022. E lembre-se: elas estão te ouvindo, avaliando seu comportamento, por mais que você ache que não.


Portanto, tenha calma, não parta para a agressão pessoal. Não perca a razão publicamente. Esculache Bolsonaro e não a pessoa, por pior que ela seja. Acredite no que você fala, a verdade está do seu lado. Não há “mamadeira de piroca” ou “comunismo” que apague o sofrimento de 14 milhões de desempregados e a dor causada pelas 226 mil mortes por COVID. O que essas pessoas precisam é ter esperança, enxergar alguma luz do fim do túnel.


Ou seja: deixe de gastar toda sua energia fritando com os crimes de Bolsonaro. Claro que é tudo absurdo demais. Mas esse é o jogo dele. Não caia na armadilha. Salve algum tempo para compartilhar links, vídeos, memes e, principalmente, falar bem de Boulos, Ciro, Haddad, Dino, Manuela, Lula ou qualquer outra liderança comprometida com o povo. Fortaleça o campo de oposição. Participe de coletivos, associações, sindicatos, grupos de estudo. Filia-se a um partido. Discuta soluções, projetos. Construa uma alternativa de país. Derrotismo e pessimismo não vão te tornar mais esperto que ninguém. Pelo contrário: vão facilitar a reeleição de Bolsonaro, e o Brasil não vai aguentar mais 4 anos dessa devastação. Faça como o mestre Didi: tenha calma, sue a camisa azul e ajude o Brasil a virar esse jogo.


Léo Puglia

Texto publicado em 4 de fevereiro de 2021









 
 
 

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